sábado, 31 de outubro de 2009

Verde, Vermelho, Dourado - Cap 8


Capítulo 8 - Rosto Dourado

Aquele verão foi suficientemente agradável. Carlisle havia adquirido um Pierce Arrow. Eu estava extático, era um carro deslumbrante, polido e amarelo. Ele disse que dirigi-lo ao redor de Ashland não seria beneficial ao nosso disfarce, mas nos permitimos dirigir o carro em outro lugar. Apenas uma coisa me incomodava.

“Como você comprou esse carro, Carlisle?”

Eu não comprei.

Levantei uma sobrancelha. Levou-me menos de um segundo para compreender a verdade. “Você roubou ele?”

Carlisle moveu os ombros. Claro, eu queria proporcionar o melhor à você. Quero que você seja feliz Edward. Ele quase disse ‘filho’ em seus pensamentos, mas parou a si mesmo. Embora ele tenha aceitado que eu pensasse sobre ele como um pai, porque ele era digno de tal respeito, ele não tinha certeza de que eu aceitaria de ser referido como seu filho.

E eu estava feliz, estando com meu pai e sendo seu filho. Embora fosse perturbador aprender o lado mais obscuro de nossa existência. Tínhamos que mentir, trapacear e roubar para podermos nos acomodar no mundo. Contudo, meus sentimentos perturbados diminuíram rapidamente, quando concluí que estes pecados realmente não fariam diferença aos condenados. Indiferentemente, era muito divertido.

Dirigimos até a cidade mais próxima e vasculhamos por lojas de música. Comecei a colecionar tudo que podia colocar minhas mãos em cima. Em uma loja, Carlisle me passou uma pilha de papéis. Olhei para o pacote, eram folhas de música em branco. Achei que você gostaria de começar a escrever sua própria música, ele disse. Eu sorri. Você está contente com essa vida. . . Edward? Eu franzi as sobrancelhas. Seus pensamentos pausaram por um breve segundo, e eu sabia que ele queria me chamar de ‘filho’. Então fiz desse meu objetivo, provar a ele que eu era merecedor de tal título.

Em sumo, um belíssimo verão, envolvendo tempo de qualidade entre pai e filho para os estranhos, e um reforço de camaradagem entre dois vampiros. Então setembro apareceu, e era meu primeiro dia do ensino médio. Bem, tecnicamente não era bem meu primeiro dia, mas, meu primeiro dia como vampiro fingindo ser humano em uma escola cheia de suculentos humanos.

“Estou certo de que você ficará bem, ” Carlisle disse depois de eu me vestir. “Você exibiu grande controle durante nossas viagens à cidade. “

“Parece que sim, ” respondi, pegando minha bolsa de livros.

Boa sorte, Edward, eu ouvi enquanto saía pela porta.

Retornei extamente às 15h50min, cinco minutos após o final das aulas. Corri o caminho todo, ansioso por escapar de todas aquelas mentes juvenis. Encontrei Carlisle em seu escritório, um jornal aberto em frente ao seu rosto. Fiz uma carranca, soltando um sibilo.

“Como foi seu primeiro dia na escola, filho?” Carlisle perguntou por de trás do jornal.

“Foi a experiência mais excruciantemente chata da minha vida. . . Pai, ” respondi secamente.

Carlisle gargalhou. Então, ele cuidadosamente dobrou o jornal e o deitou em sua mesa. Ele estava sorrindo e então ficou sério abruptamente.

“E os humanos? Como foi?” ele perguntou. Movi meus ombros, me jogando em uma cadeira. “Teve qualquer problema em resistir?”

“Bem, não foi tão difícil quanto eu imaginava, ” eu disse. “Estou bem certo de que humanos ficariam tão surpresos quanto eu estava, se a refeição deles começasse a andar de repente. “

Carlisle levantou as sobrancelhas, surpreso. “O que quer dizer?”

“Eu podia ouvir todos os seus pensamentos, cada uma de suas insignificantes, minúsculas mentes. ” Apertei o canal do meu nariz. “Foi exaustivo. Sim, ocasionalmente um humano chegava muito perto, ou havia uma brisa em minha direção. Contudo, apesar da dor em minha garganta e o fresco fluxo de veneno em minha boca, eu certamente não os achava atraentes quando seus pensamentos triviais invadiam minha mente. “

“Interessante, ” respondeu Carlisle, com um sorriso. Estou orgulhoso de você.
“Pelo quê?” questionei.
“Por desenvolver uma conexão com a humanidade tão cedo. É uma proeza incrível. “

Eu sorri, era um elogio maravilhoso. Quase me fez sentir que depois de tudo eu tinha alguma chance de viver às expectativas dele e ganhar meu valor. Naquele ponto, a relação pai/filho era mais uma piada interna do que uma realidade que eu tanto ansiava.

“Então, você vai trabalhar no seu primeiro turno noturno no hospital essa noite, correto?” perguntei, sem querer ser rude. Eu me importava com os interesses dele tanto quanto com os meus próprios. No entanto, eu poderia facilmente ter ficado reclamando de ter que ficar na escola por horas, então eu precisava de uma distração.

“Sim, isso mesmo, ” ele respondeu. “Estou ansioso para continuar meu trabalho. “

E assim foi por meses. Tínhamos nossa rotina. De dia, eu agia como humano, estudante de dezesseis anos, e de noite, enquanto Carlisle trabalhava no hospital, eu continuava com minhas composições musicais. Tínhamos uma imensa quantidade de privacidade, a qual adorava imensamente. Ainda assim, ao mesmo tempo, compartilhávamos nossa privacidade respeitosamente. Eu não aprendi que havia ganhado meu valor até muito depois, pois eu fiquei sem tempo de repente, quando achei que tínhamos todo o tempo do mundo.

Os dois anos que tínhamos. . . se acabaram.

Eu ouvi Carlisle correndo para dentro de casa, seus pensamentos estavam confusos e em um turbilhão. Eu também podia sentir o cheiro, teria sido impossível não notar. Sangue. Sangue humano. Sangue humano fresco. Carlisle, eu pensei, o que você fez?

Edward venha depressa! Preciso de sua ajuda!

Nunca o ouvi soar tão agitado antes, me deixava nervoso. Corri até ele e o encontrei carregando uma mulher humana. Sem palavras, me joguei de costas contra uma parede.
Por favor, ela não tem muito tempo, ele me implorou. Ele estava certo. Eu mal podia ouvir o coração dela, estava tão fraco e desacelerando a uma velocidade assustadora.

“O que você espera que eu faça?” fechei a cara.

Preciso que você me segure. Ela é especial, não sei se posso me conter. . . E eu preciso. . .

Meus olhos se arregalaram, chocado com suas palavras. Mas se era o que ele precisava, então isso era o que eu faria por ele. Acenei em consentimento. O segui até seu escritório. Ele gentilmente deitou a mulher em sua mesa. O que eu vi em seguida fez minha mente nauseada. Ele a estava mordendo. Pescoço, pulsos, tornozelos, peito. Criando feridas da mesma forma que fez comigo.

Edward! Faça-me parar!

Eu o agarrei e puxei nós dois para fora do escritório. Sentamos ali, eu amedrontado e ele respirando pesadamente. Então ele correu para o banheiro e cuspiu sangue na pia. Ele ligou a torneira, enxaguando a boca. Tudo que eu podia fazer era sentar ali e encara-lo. Ele me viu pelo espelho.

“Obrigado, ” ele sussurrou. Movi meus ombros. Eu faria qualquer coisa por ele. “O nome dela é Esme, ” ele começou, “ela tentou suicídio. Ela é especial e eu não podia apenas deixá-la morrer. “

Sua mente abriu e eu vi Carlisle atendendo uma garota de 16 anos. Ele estava cuidando de sua perna quebrada. Sedos cabelos cor-de-caramelo, rosto doce e apaixonado. Era o mesmo rosto da mulher contorcendo-se de agonia no escritório de Carlisle, dez anos antes. Um rosto dourado. Eu soube então, era a companhia que ele precisava. Eu não era suficiente.

Ele justificou suas ações, tirar uma vida humana por amor e companheirismo. Eu tive dificuldades em justificar suas ações com a mesma rapidez que ele o fez. Sim, já estavamos condenados, então mais um ato pecaminoso e criminoso de roubar uma alma humana não importava. Contudo, eu sabia que Carlisle ainda lutava com sua consciência mesmo que suas palavras falavam o contrário. Ele sabia melhor do que não tentar me enganar.

Eu aceitei que essa mulher era o que ele precisava. O que ele queria todo o tempo. Isso não significava que eu tinha que gostar da situação ou dar minha aprovação. Obviamente ele podia fazer o que quisesse, com ou sem minha opinião. Nunca falamos olho no olho sobre o assunto. Ele ainda acreditava firmemente, agora mais que nunca desde que tinha esta mulher, de que haveria um lugar para nós em uma pós-vida. Ele tinha uma visão serena, quando tudo o que eu via era esquecimento. Mas, em que contemplar a pós-vida de um vampiro importava para um imortal? Era uma discussão sem sentido. Nenhum de nós encararia a morte tão cedo, isso se algum dia a encontrarmos.

Então ouvimos um histérico grito de dor vindo do escritório. E então começou. . .

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Verde, Vermelho, Dourado - Cap 7


Capítulo 7 - Dourado

Eles tinham estado lutando durante dias, os humanos de Chicago. Olhei para fora da janela, agradecido que estávamos em uma área longe das rebeliões. Podia imaginar bem o que aconteceria com tanto sangue humano derramado na minha frente. Eu lhes mostraria uma luta que eles nunca imaginariam, nem até em seus piores pesadelos.

Espiei Carlisle. Ele estava ouvindo as notícias na rádio, ocasionalmente sacudindo sua cabeça. Terrível, e não parece que está melhorando em nada, ele estava pensando. Suspirei. Ainda bem que ele não podia ouvir os meus pensamentos. Eu tornava-me mais ansioso à medida que o tempo passava. Tendo de ficar confinado em um apartamento, para que não pegássemos o cheiro de sangue humano há quilômetros de distância, era completamente maçante. Com certeza, nós como vampiros, poderíamos ter sido muito mais produtivos.

Estava no meu limite e pensando em várias coisas ao mesmo tempo. Se pudesse pegar os causadores. . . Conseguiria por um fim em todo esse assunto sofrido rapidamente, e não deixaria nenhuma evidência para trás. Ninguém nem notaria que outro criminoso esteve no meio. Eu seria limpo sobre isso e até lhes mostraria clemência, nenhuma tortura, apenas uma morte rápida. Estava gostando do plano que estava em formação na minha mente quando Carlisle me interrompeu com os seus pensamentos.

É uma pena, mas suponho que até os seres humanos se tornam animais de vez em quando. . .

Decidi expressar meus pensamentos. Se os humanos estavam se comportando como animais, talvez não éramos melhores do que eles eram. Jogo justo.

“Poderíamos parar isto, ” eu disse casualmente.

“Não, não podemos, ” respondeu Carlilse severo. Eu sabia que ele estava sério em suas palavras já que ele as disse em voz alta, mas tive de discutir.

“Mas podemos, ” enfatizei, “temos habilidades, poderíamos terminar com toda esta luta. “

Ele levantou-se e cruzou seus braços. “As nossas habilidades não são para perpetuar a violência. “

Joguei meus braços para o ar. “Isso é precisamente para o que as nossas habilidades são. Somos assassinos, é o que fazemos. “

“Não, eu sou um médico. “

“E você é vampiro. “

Encaramos um ao outro durante um momento. A tensão de viver em um espaço tão confinado estava obviamente atacando nossos nervos. Então ele suspirou e tentou sorrir.

“Peço desculpas, ” ele disse graciosamente. “Podemos ser assassinos, mas não somos heróis. “

“Então o que somos, vilões?” Respondi asperamente.

Imediatamente lamentei tê-lo respondido assim e olhei para baixo. Foi horrivelmente desrespeitoso, certamente não podia me dar o luxo de perder o único aliado que eu tinha em meu mundo escuro. Era oficial, o meu último nervo se esgotou. Aliviei minha carranca e olhei para baixo, esperando por uma resposta.

Ele muito calmamente respondeu, “Não, estamos nos mudando. “

Por mais que eu não quisesse adimitir, Carlisle estava certo. A luta, os humanos começaram a chamar “the Race Riot”, era a distração perfeita. Era tempo para mudar e começar realmente a viver. Ninguém nem nos notaria deixando a cidade. Para não mencionar, Carlisle tinha estado em Chicago por muito tempo, ele não podia dizer que era mais velho do que trinta e cinco sem despertar suspeitas. O disfarce pesou.

“Onde estamos indo?” Perguntei.

“Ashland, Wisconsin. É uma área em que já estive antes. ” Ele abriu sua mente e vi uma pequena comunidade do norte, localizada perto de um grande lago.

“O que farei lá?” A imagem que ele me mostrou foi agradável o bastante, mas não gostei da idéia de passar ainda outro ano em exclusão.

“Eu estava pensando que você poderia ser o irmão mais jovem de minha esposa que morreu. ” Bufei, era divertido. Toda a alegria abandonou-me quando ele disse suas seguintes palavras. “Você pode registrar-se em uma secundária, aprender como se comportar em volta dos humanos. “

Tínhamos tudo no carro de Carlisle, um brilhante modelo Ford T preto. Não conseguimos colocar o piano, é claro, portanto aconselhei obter um segundo veículo, uma picape talvez. Carlisle aceitou e adquiriu um caminhão Dodge enferrujado. Logo estávamos na estrada, segui o seu Ford enquanto dirigia o caminhão, e fomos capazes de ter uma conversa o caminho inteiro. Os talentos ocultos do vampiros eram certamente muito convenientes.

A mais ou menos meio caminho do nosso destino notei um carro lentamente dirigindo junto de nós.
Era longo e esbelto, uma máquina muito bela.

“Eu sempre quis ter um desses, ” mencionei.

Um Pierce Arrow?

“Sim, o meu pai teve um se me lembro corretamente. Ainda assim eu teria gostado de ter um para mim mesmo. “

Verei o que posso fazer. Podia praticamente ouvir o sorriso em sua voz.

Ele comprou uma pequena casa nos arredores da cidade, perto de uma floresta. Era a posição ideal. Tínhamos mais espaço do que antes e pela primeira vez, comecei a sentir-me em casa com ele.

Caçamos aquela primeira noite, para dar-me a chance de explorar esta nova área. O jogo era muito mais desafiante, ursos e búfalos. Aproveitei imensamente. Era gratificante enfrentar um desafio verdadeiro, me entregar à caça.

Um novo cheiro invadiu minhas narinas. Girei minha cabeça e vi uma bela criatura. Uma cara bonita, orgulhosa. Olhos dourados que brilhavam na escuridão da noite. O leão da montanha curvou seus ombros, o imitei. Meus músculos se tensionaram, preparados para dar o bote. Me agachei e mostrei meus dentes para minha presa.

As palavras se foram de mim quando afundei meus dentes na carne do leão do montanha. Como alguém descreve a refeição mais deliciosa que eles já provaram alguma vez quando não há nenhuma comparação? O gosto do sangue deslizando por minha garganta abaixo não era o único fator. O jeito que esta criatura lutava, provocando um desafio a cada um dos meus sentidos e habilidades, era excitante. Mais do que qualquer coisa, eu aceitei o desafio e ganhei cada vez.

Soltei o corpo inanimado no chão. Apontei meu rosto para o céu estrelado e deixei sair um longo rugido de alegria. Lutei contra o animal e saí triunfante.

Depois que nos satisfizemos, nos sentamos em um vasto campo, dois vampiros apenas tentando sobreviver.

“Carlisle?”

Sim?

“Entendo que não estou mais com sede, mas também não estou completamente satisfeito. “
Carlisle suspirou. Eu sei, Edward. Tomou-me muitos anos para aprender como viver com essa insatisfação. Sempre estará lá.

“Você alguma vez deseja por mais?”

Às vezes. Passei dois séculos e meio resistindo ao chamado do sangue humano. Não estou a ponto de desistir de tudo isso agora.

Eu podia dizer que havia mais em sua mente, então o incitei. “O que você deseja?”

Companhia.

Isso não era algo que eu desejava. Não podia imaginar compartilhar-me com alguém, nem mesmo precisar de alguém. Eu tinha um objetivo simples, fazer meu pai orgulhoso. Carlisle, um vampiro, o meu pai e meu ídolo. Me senti triste que ele desejasse mais, quando eu não o fazia. Mais de mim mesmo, talvez, mas certamente não companhia.

“Você deveria se limpar, ” Carlisle disse enquanto andávamos de volta para a casa.

Sorri de modo esperto para ele. “Você também. “

Ele fingiu ofensa. “Quero que você saiba que não tenho derramado uma gota de sangue em minha roupa desde 1679. “

“Sério?” Levantei uma sobrancelha. “O que aconteceu?”

“Bem. . . Tive um confronto particularmente entusiasmado com um Alce.”

Rimos baixinho, e entrei no banheiro.

O meu queixo caiu quando olhei o espelho. Inclinei-me para perto, virando meu rosto para um lado e para o outro. Carlisle sorriu calorosamente no espelho e piscou para mim. Não podia parar de olhar. Meus olhos estavam cor de topázio. Finalmente consegui, eu tinha terminado com o meu primeiro ano. Eu era dourado..

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Verde, Vermelho, Dourado - Cap 6


Capítulo 6 - Vermelho Desbotado

Eu olhei no espelho. Franzi profundamente as sombrancelhas, e depois as alisei. Levantei um canto de minha boca, depois abaixei o outro canto. Levantei minhas pálpebras e depois deixei-as cair. Mostrei minha língua. Suspirei. Meus olhos tinham começado a mudar levemente, conseguia ver uma vaga cor castanha na iris, mas o vermelho ainda era bastante visível. Isto ia ser difícil.

Carlisle tinha me mantido bastante isolado durante quase um ano. Tudo que tive como companhia era o piano e livros. Quantias infinitas de livros, colecionadas por Carlisle. Haviam livros que eu nunca tinha ao menos ouvido falar. Absorvi cada palavra, inclusive os livros de medicina. Eu podia ler tão rápido, aprender mais rápido ainda, em uma velocidade cegante. Ainda assim, ficava entediado.

E então, estava na hora de me aventurar lá fora. Carlisle tinha feito planos para eu reinvidicar os bens de minha família. De alguma maneira ele tinha convencido as pessoas apropriadas de que eu tinha sobrevivido a epidemia e que estava me recuperando todo esse tempo. Quando eu lhe perguntei, ele disse, ” Os humanos vão acreditar no que você lhes falar.”. Isto aliviou um pouco minha culpa, eu não era o único que estava mentindo.

Você está pronto, Edward?

Eu podia ver Carlisle no espelho, em pé na entrada. Curvei minha cabeça e me apoiei contra a pia do banheiro.

“Na verdade não, ” murmurei. “Me lembre novamente como é a história.”

Como seu médico, eu te tenho mantido sob meu cuidado pessoal pelos últimos dez meses. Considerando que seus pais faleceram, você é o único restante para reinvidicar a herança. Claro que, a única razão para a qual fazermos isso é para que você possa ter o que quiser de sua antiga vida.
“E por que estamos fazendo isto hoje?” Eu olhei para ele no espelho, e ergui uma sobrancelha.

“Porque hoje”, ele sorriu largamente, “está nublado.”

Nós estávamos andando rua abaixo rumo a minha casa. E quero dizer andando mesmo. Carlisle tinha que caminhar ao meu lado com uma mão em meu ombro todo o tempo. Primeiro, para ter certeza que eu mantivesse o ritmo humano, e segundo, porque eu estava fingindo ser cego. Usei pequenos e redondos óculos de sol, para que assim ninguém pudesse ver meus olhos vermelhos.

Carlisle tinha falado ‘manso’ com o advogado que estava controlando os negócios de minha família. Ele era um dos sócios de meu pai. Era um pouco perturbador descobrir que os pensamentos dele eram tão diferentes às suas palavras faladas. Ele me ofereceu seus pêsames, dizendo que a morte de meus pais foi uma grande lástima. Enquanto em sua mente, ele se alegrava pelo ganho do controle da firma de advocacia que a morte do meu pai lhe permitiu. Todos os humanos eram assim tão mesquinhos?

Eu tinha decidido não vender a casa, não podia dizer o porque, e talvez nunca saberia. A única coisa que podia ter certeza era o senso de família que a casa representava, e eu não podia deixar isso partir. Assim, a casa iria permanecer em meu nome, sendo cuidada pelo escritório de advocacia por tempo indeterminado.

Então ali estávamos, dentro da casa que parecia familiar mais e ainda assim diferente para mim. Trabalhamos de forma eficiente, Carlisle e eu, recolhendo tudo o que eu queria manter comigo. Ele dizia do outro lado da casa, Você deseja manter as jóias da sua mãe? E eu respondia em nada mais do que um sussurro, ele conseguiria ouvir cada palavra.

Etiquetamos as caixas, decidindo quais deveriam ser enviadas a nós e quais permaneceriam lá. Tudo levou uma hora. Satisfeito com nosso trabalho, deixamos a casa pela parte dos fundos, cruzando o vasto e verde gramado. Naquele momento, as nuvens se abriram e um raio de luz solar acariciou Carlisle. Eu congelei. Carlisle se virou.

O que foi, Edward?

Sua pele estava brilhando, eu podia ver toda linha, cada superfície. Olhei para minha mãos na luz do sol, minha pele estava brilhando também.

É o que nós somos, ele disse, congelados no tempo.

Fascinante e aterrorizante ao mesmo tempo. Respirei profundo e acenei com a cabeça para que ele continuasse andando.

O vampiro conduzindo o cego, bem cômico na verdade. Entrelaçamos através de um mercado local cheio de pessoas gritando suas auto-promoções. Eu cortei o fluxo de ar para meus pulmões, como Carlisle havia me dito, para bloquear todos esses cheiros humanos. Fechei meus olhos brevemente, tentando controlar o volume de seus pensamentos.

“As melhores e mais frescas flores que você poderá encontrar!” gritou uma grande mulher em um vestido cinza. Elas estavam frescas ontem, mas as pessoas não compraram, oh não. . . então eles as compram hoje. . .

“Peixe! Compre seus peixes aqui!” Meu primo me falou semana passada que meus preços são ultrajantes. . . para inferno com ele, eu tenho uma família para alimentar. . .

Eu não pude deixar de me perguntar se existia tal coisa como um humano que fosse fiel às suas palavras. E me perguntei também de suas reações. As multidões pareciam não perceber que estavam se abrindo entre nós como o Mar Vermelho. Mas ninguém sequer deu uma segunda olhada, com excepção de alguns: Que belo homem ou Que pena que ele é cego, um rosto tão lindo, e em seguida estávamos fora de suas mentes. O que lhes causava que nos ignorasse tão depressa?

“Eles nos temem, ” eu concluí em um sussurro.

Sim, entretanto eles não estão cientes de seus medos. O instinto humano declara que eles devem manter distância, mas eles não sabem disso em um nível consciente.

“Por quê?”

Eles são nossa presa natural. Mas, e ele deu ênfase nessa palavra, escolhi não ver a humanidade de tal maneira.

Os detalhes de nosso disfarce se tornaram muito mais complicados para mim. Estávamos nos escondendo em plena vista, era um paradoxo fenomenal.

“Como voce vê os humanos então?”

Como uma lembrança de minha fé.

“Fé?”

Sim, acredito que se eu puder manter minha sensibilidade em respeito a humanidade, talvez minha alma será julgada baseada nisso.

“Sua fé é absoluta?”

Sim. E a sua?

Naquele momento queria acreditar muito nele . Eu sabia o que ele estava dizendo, ele acredita que temos almas. Que poderíamos proteger nossas almas ao sermos mais humanos. Não podia concordar e não conseguia dizer nada mais desse assunto.

Porém mais do que qualquer outra coisa, eu queria me afastar dos humanos.